Carta / Força 26 - Kanarô, a grande arara amarela

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Arcano 20Tata Txanu, Maria Lalla Cy Aché Nelson Burgoz
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Música: Tradicional do povo Yawanawá

Kanarô, tcheretetêê  Kanarô, tcheretetêê
Kanarô, tcheretetêê  Kanarô, tcheretetêê
Atô Nomá nomá  Atô nomá nomá
Atô Nomá nomá  Atô nomá nomá

Kanarô, tcheretetêê  Kanarô, tcheretetêê
Atô Nomá nomá  Atô nomá nomá

Atô Nomá nomá  Atô nomá nomá

Andiambá Kenoaiô Kanarô Atô nomá nomá
Kanarô, tcheretetêê Kanarô Atô nomá nomá
Andiambá Kenoaiô Kanarô Atô nomá nomá

Kanarô, tcheretetêê Kanarô Atô nomá nomá

Kanarô fala da saudade, nos lembra que somos todos Um.

Coreografia : Essa dança também é inspirada em movimentos de danças tradicionais indígenas , em especial do mariri da tribo yawanawá. O canto é original e traz a mensagem da arara azul que nos lembra que ainda que sejamos diferentes, fazemos todos parte da grande família cósmica.

Um canto completo para cada movimento.

 

Primeiro movimento - Formação do jacaré: Fila indiana com o primeiro elemento fazendo a boca do jacaré e todos os outros o seguindo, segurando na altura dos quadris, formando o corpo do jacaré. O jacaré se sacode, sacudindo toda a fila. Assim todos girando se espalham formando um grande círculo.

 

Segundo Movimento - Chamamento (arara azul): O focalizador puxa o canto e todos do círculo repetem e, cada um leva a mensagem para o outro com a mão direita em torno da boca e o braço esquerdo esticado para trás como uma asa. As testas se tocam quando a mensagem é transmitida. O que recebeu a mensagem passa a ser o cantor, proclamador da mensagem. Repete o movimento à critério do líder ou até que todos tenham recebido a mensagem

 

Terceiro Movimento - Dança do encontro: Os parceiros ficam um de frente para o outro com o corpo ligeiramente curvado, frontes encostadas, andam para frente e para trás, com as mãos nos ombros do parceiro.

 

Quarto Movimento: Abraçados no círculo, balançamos e nos olhamos amorosamente reconhecendo a família cósmica, passos laterais pequenos no sentido anti-horário, enquanto o líder canta pela última vez.

 

Kanarô , o canto da saudade  dos Yawanawá.

 

Esse mito, aprendi com o cacique Yawanawa, Biraci. Reza a lenda que os primeiros habitantes da floresta queriam saber o que havia lá longe, do outro lado da margem rio, onde ninguém nunca havia chegado e mal podiam avistar. Neste tempo os bichos também falavam e o primeiro homem foi falar com o Jacaré para ver se ele podia levar alguns homens até lá. O Jacaré percebendo o tamanho da curiosidade dos homens resolveu negociar o serviço: se você me trouxer comida todos os dias, aí eu levo vocês para conhecer a outra margem daqui há algumas luas. Mas só não pode me trazer carne de filhote de jacaré, certo?

 

            Os dias se passaram com os homens levando boa caça para o jacaré e nada de chegar o evento da famosa travessia. O jacaré no bem bom ia enrolando e adiando para poder comer cada vez mais sem se esforçar, as custa da curiosidade dos humanos. Aquilo já estava cansando os homens, até que um deles resolveu que o jacaré já estava abusando e ao invés de buscar a caça no meio da floresta matou ali mesmo uns filhotes de jacaré pensando que no meio do resto da caça dos outros homens, o jacaré nem ia notar a diferença. Mas que engano, ninguém percebeu a mentira do preguiçoso, exceto o Jacaré, é claro!

 

             No dia seguinte, o Jacaré anunciou ter chegado a hora da travessia, deixou que subissem em suas costas tantos quanto podia levar e partiram em direção à outra margem. No meio da travessia, o Jacaré começou a sacudir o seu corpo e todos foram lançados longe: um foi parar na China, outro no fim do mundo, outro no Rio de Janeiro, uns foram parar até além do oceano, cada um mais longe que o outro, em lugares que nunca tinham visto antes e não sabiam mais como voltar para casa, para sua família, e seus amigos da tribo.

 

             Então o primeiro homem do mundo que tinha ficado na margem esperando para saber o resultado da aventura ficou também com muita saudade dos seus amigos e entrando em sintonia com o voo da grande arara amarela levou uma mensagem através do canto kanaro para lembrar a cada humano espalhado pelo mundo que éramos todos da mesma tribo, que vínhamos da mesma fonte sagrada, que somos todos parentes.

 

            Kanaro é um canto sagrado arquetípico dos yawanawá. "Kanarô", para os índios Yawanawá, significa uma saudade imensa, uma saudade de chorar!

"Kanarô, terê-tê-intê, Kanarô terê-tê-intê", canta todo o povo Yawanawá, reunido logo de manhã cedo em grandes rodas formadas no meio do terreiro central da aldeia Nova Esperança. Nus da cintura para cima e pintados em incríveis desenhos (kenês), capturados durante as viagens espirituais das mulheres que tomam Uni, os índios dançam e cantam antigas e belas canções, que mais parecem hinos e que falam da floresta, dos animais, das aves, da água, do vento, do ar.

 

            Este canto nos conduz ao tempo e ao vento que nos leva ainda hoje com a Arara gigante amarela, a ave que voa mais alto no mundo, atravessando de um lado para outro do rio, levando a mensagem de saudade e a pureza para os corações dos homens, das mulheres, das crianças e dos velhos. Voamos com ela rumo a um mundo novo, cheio de paz, saúde, solidariedade, amor e alegria.

E como ensina o Biraci: “Kanarô não se traduz. Ela tem uma tradução sentimental. É um canto que fala da lembrança aos parentes ou a alguém que você gosta muito, da saudade dessas pessoas. É um canto que traz a melodia mais antiga da nossa civilização, onde o homem canta com saudade de sua família.”

Pergunta: Quem são as pessoas queridas, muito importantes em nossas vidas que andam esquecidas, perdidas no tempo/espaço?

 

Mandinga: Leve uma mensagem de amor, um canto significativo e, se puder faça contato direto. Se não for possível, só cante e dedique o canto da sua alma. Lembre-se das coisas boas, vividas juntas e diga ou escreva sobre como essas lembranças são importantes para você. Desfrute da partilha, lembrando que somos todos um.